A resistência do povo cubano diante de décadas de bloqueio, a defesa da soberania latino-americana e a necessidade de construir caminhos próprios de desenvolvimento foram os principais temas das atividades realizadas na terça-feira (11) e na quarta-feira (12), em Santa Maria e Porto Alegre (RS), como parte da agenda nacional de solidariedade a Cuba.
Construída pela Regional RS do ANDES-SN, em articulação com a Associação Cultural José Martí, o CPERS-Sindicato e as seções sindicais dos Docentes da Universidade Federal de Santa Maria (Sedufsm SSind.) e do ANDES-SN na UFRGS, a programação integrou a Semana de Luta em Defesa de Cuba e pela Soberania dos Povos e marcou o centenário de nascimento de Fidel Castro, celebrado em 13 de agosto.
Durante o 69º Conad, realizado em julho, a categoria deliberou pela realização de uma mobilização em solidariedade a Cuba, reafirmando o compromisso de fortalecer a luta do povo cubano diante dos constantes ataques à sua soberania. A decisão dá continuidade a ações de apoio e solidariedade a Cuba já aprovadas em outros congressos da categoria.
100 anos de Fidel
Com o auditório lotado, a atividade do dia 11 foi realizada na sede da Sedufsm SSind., em Santa Maria, com o tema “100 anos de Fidel: a contribuição da Revolução Cubana para a América Latina”. A mesa reuniu Victor Cairo, embaixador de Cuba; André Martins, 2º vice-presidente da Regional RS do ANDES-SN; Lázaro Camilo Joseph, docente do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM; Cleder Fontana, diretor da Sedufsm SSind.; Emanuelle Somavilla, do coletivo estudantil “É Preciso Dar um Jeito”; e Leonardo Preto Echevarria, da Associação Cultural José Martí.
O embaixador abordou a atual situação da ilha e os desafios impostos pelo agravamento da pressão dos Estados Unidos. Victor Cairo destacou a permanência dos compromissos sociais da Revolução Cubana e a atualidade do pensamento de Fidel Castro.
Segundo Victor Cairo, a América Latina e o Brasil têm o direito de encontrar seus próprios caminhos de desenvolvimento. Ele defendeu a rejeição ao modelo neoliberal, apresentado como solução e modelo ideal de vida. “O sistema acaba por nos fragmentar, mas é nos momentos mais difíceis que a solidariedade e o humanismo podem prosperar”, afirmou. “O ser humano não é mau por natureza e nem sempre é o mais forte quem ganha. Cuba nos prova isso. É a luta de Davi contra Golias”, completou.
Ao abordar o momento atual do país, Victor Cairo destacou que o principal desafio continua sendo o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos, cujo impacto, conforme o embaixador, evidencia uma prática genocida contra a população cubana. Os apagões, cada vez mais frequentes, seriam uma das expressões mais visíveis desse cenário, diante das dificuldades enfrentadas pela ilha para comercializar petróleo e garantir seu abastecimento energético.
Resistência e soberania
Professor cubano e docente da UFSM, Lázaro Joseph também apontou o bloqueio como o principal obstáculo ao desenvolvimento da ilha. De acordo com o docente, Cuba enfrenta restrições para ampliar suas possibilidades econômicas em razão das medidas impostas pelos Estados Unidos. Ainda assim, reforçou a capacidade de resistência e resiliência do povo cubano: “Quando fecham uma porta, nós abrimos outra”.
O docente também criticou a política conduzida pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e avaliou que a pressão contra Cuba integra uma estratégia mais ampla de intervenção sobre países que não se submetem aos interesses imperialistas.
Assim como o embaixador, Lázaro afirmou que os Estados Unidos fracassaram diante da China e de outros modelos que não se submetem à sua lógica de intervencionismo. “E se o ‘vai pra Cuba’ virasse ‘vai pra China’? Quando a China vai bem, é capitalista; quando vai mal, é comunista?”, provocou, expondo a política de conveniência utilizada para defender regimes neoliberais pelo mundo.
A estudante Emanuelle Somavilla relacionou o intervencionismo estadunidense ao avanço de posições conservadoras no país e destacou as dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora, como a informalidade, os baixos salários, a morosidade na discussão sobre o fim da escala 6x1 e o endividamento provocado pelas bets.
Para André Martins, diretor do ANDES-SN, a situação vivida atualmente em Cuba configura um “genocídio silencioso”, diferente dos ataques militares que atingem outros povos. Segundo ele, o bloqueio impede que o país tenha acesso a recursos essenciais, especialmente combustível. “Desde janeiro deste ano, até hoje, só entrou um barco com combustível para Cuba, que veio da Rússia”, afirmou. O diretor explicou que Cuba consegue produzir apenas 35% da energia necessária a partir de seu próprio petróleo, que é pesado e de difícil refino, o que torna indispensável a importação de combustível para o funcionamento das termoelétricas.
A falta de energia, destacou André Martins, afeta diretamente a produção de medicamentos e alimentos. Ele ressaltou que a indústria farmacêutica cubana é a terceira maior da América Latina e depende de insumos e condições adequadas de produção, comprometidas pela crise energética. Diante desse cenário, o diretor do ANDES-SN defendeu o fortalecimento da solidariedade a Cuba por parte do governo brasileiro, das organizações sindicais e sociais e dos movimentos sociais, além de maior apoio dos países que integram os BRICS. Martins também avaliou positivamente a realização do evento em Santa Maria e destacou a importância da iniciativa para ampliar a denúncia da situação vivida pelo povo cubano.
Como apoiar Cuba?
Na quarta-feira (12), a programação seguiu em Porto Alegre, com o debate “Como apoiar Cuba em tempos de genocídio imperialista”, realizado na sede da Regional RS do ANDES-SN. A atividade contou novamente com a participação do embaixador de Cuba no Brasil e de Daniele Cunha, 1ª vice-presidenta da Regional RS do ANDES-SN.
Durante o debate, o embaixador denunciou os impactos do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que afeta áreas essenciais como saúde, energia e alimentação em Cuba. Segundo ele, as dificuldades enfrentadas pela população cubana não decorrem de uma suposta falha do socialismo, mas das agressões e sanções imperialistas que buscam desestabilizar o país e comprometer sua soberania. “Muitas vezes escuto que o socialismo não é a solução e que está fracassado em Cuba. Minha pergunta é: se o socialismo em Cuba não funcionou, então por que nos impõem um bloqueio?”, questionou.
Para Victor Cairo, as sanções contra Cuba atingem diretamente o setor energético, com consequências graves para a economia e para os indicadores de saúde e qualidade de vida. Ele contou que, devido ao bloqueio, milhares de pacientes não têm acesso a radiografias, quimioterapias ou a diálises, e a taxa de mortalidade infantil praticamente duplicou em um curto período após a aplicação do bloqueio energético contra a população cubana.
O embaixador também destacou a importância da solidariedade internacional entre os povos latino-americanos para enfrentar as pressões externas e defender as conquistas sociais da Revolução Cubana. Ao final, convocou sindicatos e movimentos sociais à unidade na diversidade como estratégia de resistência ao avanço de políticas neoliberais e fascistas na região. “Cuba se defenderá e seguirá lutando por sua história de revolução, que também é a história da América Latina e do Caribe, e por nosso presente e, também, nosso futuro”.
“A conversa com o embaixador de Cuba no Brasil foi um momento muito significativo para nós, pois pudemos ter uma melhor dimensão das dificuldades enfrentadas pelo povo cubano em função do bloqueio, bem como das suas principais necessidades nesse momento. Além disso, foi um espaço para dialogarmos sobre formas de fortalecermos ainda mais as ações de solidariedade com Cuba e de mobilizarmos nossas bases para contribuir com essas ações”, avaliou a diretora do Sindicato Nacional.
Com informações da Sedufsm SSind.
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