Projeto de militares para o Brasil defende reformas do Estado e mercantiliza direitos humanos

Atualizado em 13 de Julho de 2022 às 15h16

*matéria originalmente publicada no InformANDES de jun.22

Sem grandes alardes, um material intitulado "Projeto de Nação: O Brasil em 2035" foi lançado, em Brasília (DF), no mês de maio, com a presença do vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) e do ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, um dos idealizadores do projeto. Coordenado pelo general Luiz Eduardo Rocha Paiva, o documento foi elaborado em parceria com os institutos militares General Villas Bôas (IGVB), Sagres e Federalista e propõe políticas públicas a serem implementadas no país ao longo dos próximos anos.

O "Projeto de Nação" aponta cenários em um horizonte temporal - neste caso, 2035 -, diante de uma conjuntura fictícia, com base em uma visão conservadora, nos costumes, e liberal, na economia, para pautar decisões estratégicas na política do país. Ao longo das 96 páginas, o documento traz uma análise de conjuntura e aborda 37 temas divididos em 7 eixos: geopolítica mundial; governança nacional; desenvolvimento nacional; ciência, tecnologia e educação; saúde; segurança e defesa nacional; e segurança pública.

Segundo os autores, o chamado “Projeto de Nação” é uma estratégia nacional “apartidária e sem radicalismos ideológicos, étnicos, religiosos, identitários ou de qualquer natureza, portanto, em total afinidade com o perfil predominante do povo brasileiro”.

Entretanto, nas primeiras páginas já é possível ver a radicalidade ideológica traduzida numa possível ameaça para o país que seria o "globalismo” – termo que ganhou repercussão com o falecido Olavo de Carvalho e o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Esse dito “globalismo”, combatido pelo governo de Jair Bolsonaro (PL), seus apoiadores e, também, por parcela significativa dos militares, se expressa concretamente em normas internacionais (sobre clima e imigração) e em instituições internacionais (ONGs ou organismos internacionais como ONU e Unesco) que, de acordo com eles, impõem padrões que não correspondem completamente aos interesses brasileiros.

O objetivo do movimento internacionalista, segundo o texto, é o de “determinar, dirigir e controlar as relações entre as nações e entre os próprios cidadãos, por meio de posições, atitudes, intervenções e imposições de caráter autoritário, porém disfarçados como socialmente corretos e necessários”, diz um trecho do documento.

Diante o avanço do “globalismo”, os militares projetam que até 2035 a sociedade brasileira saberá “se posicionar, de modo a elevar a capacidade do País para enfrentar os desafios do jogo do poder — nacional e internacional”. No Brasil do futuro, vislumbrado pelos oficiais, uma significativa parcela da população se identificará “como conservador e liberal” e pressionará por mudanças estruturais no sistema de educação e no sistema político.

Rodrigo Lentz, doutor em Ciência Política (UnB), explica que o caráter privatista contido no “Projeto de Nação” é um sintoma da ideologia institucional das Forças Armadas construída nas últimas quatro décadas. Para ele, agora, a sociedade democrática está passando por um teste de realidade, desfazendo o mito de que os militares seriam “estatizantes” ou “nacionalistas”.

“O projeto é resultado da irresponsabilidade civil com a organização militar nacional, fruto de um projeto de profissionalização que desconsiderou a realidade da permanência da segurança nacional como principal papel institucional das Forças Armadas”, disse.

Leia a reportagem completa sobre o “Projeto de Nação: O Brasil em 2035" no InformANDES de Junho
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*foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

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