A ANPUH – Associação Nacional de História, a revista Almanack e a Sociedade de Estudos do Oitocentos organizaram uma coletânea sobre o bicentenário da Independência, tendo como organizadores os professores André Machado (Unifesp), Andréa Slemian (Unifesp) e Claudia Chaves (UFOP). A publicação estava prevista para ser lançada em julho de 2025, pela Editora da Câmara dos Deputados. Contudo, ao longo do processo editorial, após a comissão responsável apontar a necessidade de mudanças, os autores e as autoras da coletânea indicaram termos que poderiam ser alterados e outros que seriam inaceitáveis, por configurarem uma forma de negacionismo histórico.
Para termos uma noção da gravidade das intervenções realizadas pela comissão da Editora da Câmara dos Deputados, foi solicitada a substituição do termo “ditadura” por “regime militar”, na esteira dos setores revisionistas que tentam impor uma narrativa reacionária da história, apagando a brutalidade e os horrores de um período marcado por torturas, censura e execução de presos políticos.
Há também censura às reflexões sobre o lugar dos povos indígenas na história, em razão do paralelo estabelecido pelos artigos entre o Marco Temporal, defendido no Congresso, e os mecanismos institucionais de continuidade dos ataques aos direitos dos povos indígenas, uma marca desses mais de 200 anos de história do Brasil. Há, ainda, censura à menção ao Haiti, numa escancarada tentativa de silenciar ainda mais as lutas dos povos escravizados e daqueles que foram executados pela máquina colonial de etnocídio.
Os setores reacionários tentam interpretar o passado pela perspectiva dos vencedores históricos, relegando os condenados da terra, os insubordinados e a classe trabalhadora a um papel letárgico. Negar a ditadura empresarial-militar é, portanto, reafirmar a história dos vencidos. O negacionismo científico, histórico, geográfico e de tantas outras naturezas é expressão, no campo acadêmico, de ações neofascistas que vêm ganhando espaço ao longo dos últimos anos, como a Escola Sem Partido, o Brasil Paralelo, o MBL e o bolsonarismo.
O ANDES-SN, dessa forma, manifesta sua irrestrita solidariedade à ANPUH e ao conjunto de autores e autoras que foram vítimas da censura promovida pela comissão da Editora da Câmara dos Deputados.
Brasília, 21 de agosto de 2026.
Diretoria do ANDES-Sindicato Nacional