ANDES-SN 45 anos: o Movimento Negro no Movimento Docente

Publicado em 20 de Julho de 2026 às 13h32. Atualizado em 20 de Julho de 2026 às 13h35

Como parte das celebrações dos 45 anos do ANDES-SN, uma série mensal de reportagens resgata a trajetória da categoria e do movimento sindical docente. Neste mês, que marca o Julho das Pretas no Brasil, destacamos a atuação do Sindicato Nacional na pauta antirracista e a participação de docentes negras e negros dentro da entidade. 

Ancestralidade e a resistência como ferramentas de luta. Fotos: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN​​​​​

A história do ANDES-SN, fundado em 19 de fevereiro de 1981, é indissociável da luta pela democratização da universidade e da sociedade brasileira. Ao longo dessas quatro décadas e meia, o sindicato transitou da invisibilidade para a consolidação de uma pauta antirracista estruturante, que incorpora o combate às opressões como parte da defesa da educação pública de qualidade e socialmente referenciada.

Para a professora Jacyara Paiva, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a militância sindical e a antirracista são indissociáveis. “Minha trajetória no movimento docente não começou quando ingressei na universidade. Ela começou muito antes, nos movimentos populares, na defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação de rua, no movimento negro e na compreensão de que educação, justiça social e racial caminham juntas”, afirma.

Trajetória da luta antirracista no Sindicato Nacional
A organização interna da pauta racial no ANDES-SN avançou, especialmente, a partir dos anos 2000, com a institucionalização do combate às opressões no plano de lutas do Sindicato. Um marco foi a criação do Grupo de Trabalho Etnia, Gênero e Classe (GTEGC), em 2007, que depois foi expandido para o atual GT de Política de Classe para as Questões Étnico-Raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS). Com o GT, o debate sobre como o racismo estrutura as relações de trabalho e o acesso ao ensino superior passou a ser pautado nos espaços deliberativos da entidade. 

Em 2010, no 29º Congresso do ANDES-SN, a categoria docente manifestou posicionamento favorável às cotas como “política transitória para universalização do acesso à educação superior”. Já em 2016, em Cuiabá (MT), durante o 35º Congresso, o sindicato aprovou importantes resoluções relacionadas à questão étnico-racial, que buscavam intensificar a luta contra o racismo, a defesa e a ampliação das ações afirmativas, assim como continuar no engajamento da denúncia do genocídio da juventude negra.

Ainda no mesmo Congresso, importante resolução encaminhou que a Comissão da Verdade do ANDES-SN deveria engajar-se na luta, no registro e na denúncia dos genocídios enfrentados pela população negra, indígena, quilombola, cigana, camponesa, dos sem-teto e dos moradores das periferias. Desde então, o ANDES-SN tem avançado na inclusão, em seu plano de lutas, de ações que combatam o racismo e promovam uma educação e atuação antirracista.

Jacyara Paiva destaca que essa evolução resultou em mudanças na própria composição da diretoria. “Hoje, o ANDES SN tem pela primeira vez um presidente negro à frente da diretoria nacional. Isto não é um dado simbólico, mas é resultado de uma longa caminhada construída por muitas mãos e mentes”, afirma.

Coletivo de Docentes Negras e Negros
A organização de docentes negros e negras no ANDES-SN não foi um processo imediato, mas fruto de uma "reintegração de posse" política e subjetiva, como descrito no artigo “Quilombagem: a organização de docentes negras e negros no ANDES-SN”, publicado na revista Universidade e Sociedade número 78. Conforme o texto, durante décadas, o chamado "Pacto Narcísico da Branquitude" operou sob o manto de uma "unidade de classe" que, na prática, tornava invisíveis as especificidades da população negra na docência.

Em 2018, durante o 37º Congresso do ANDES-SN em Salvador (BA), ocorreu a primeira reunião do Coletivo de Docentes Negras e Negros. O grupo, conforme Jacyara, surgiu por iniciativa das professoras Dalva dos Santos, Rosineide Freitas e Cláudia Durans, motivadas pela baixa representatividade negra nas instâncias deliberativas da entidade. Naquele congresso, dos 500 participantes, menos de 30 eram docentes negros ou negras.

“[o coletivo] Nasceu das ausências, dos silenciamentos e da percepção de que muitas vezes as questões raciais apareciam como temas periféricos, quando, na verdade, estruturam profundamente a sociedade brasileira”, recorda a professora da Ufes. 

Desde então, o coletivo — carinhosamente chamado de Quilombo — cresceu significativamente e hoje conta com cerca de 300 integrantes. “O que nos une é a luta antirracista. Somos um coletivo auto-organizado, horizontalizado, sem presidentes, coordenadores ou hierarquias internas. (...) Talvez seja justamente essa horizontalidade que faça tantas pessoas dizerem que, quando chegam ao Quilombo sentem que encontraram um lugar de pertencimento”, explica a docente.

Combatendo o Epistemicídio
Um dos grandes embates travados pelo movimento negro é contra o epistemicídio — a deslegitimação e o apagamento de formas de conhecimento produzidas por pessoas negras. Historicamente, a intelectual negra e o intelectual negro foram tratados como "objetos de estudo" e não como sujeitos produtores de teoria.

“O epistemicídio não elimina apenas pessoas; ele elimina formas de produzir conhecimento. Durante séculos, intelectuais negros foram invisibilizados, suas contribuições deslegitimadas e suas experiências tratadas como objeto de estudo, nunca como produção de teoria. Não podemos negar que o pacto da branquitude ainda está em nossas seções sindicais, em nosso sindicato, mas hoje estamos aqui com nossos corpos, nossas existências questionando e denunciando este pacto”, conta Jacyara.

Para ela, o coletivo Quilombo não serve apenas para denunciar o racismo, mas também para "produzir conhecimento, formular políticas, escrever documentos (...) e demonstrar que o pensamento negro sempre fez parte da construção da universidade brasileira".

A docente ressalta que esse combate é urgente diante do cenário de branqueamento da docência. Dados indicam que, em muitos espaços universitários, a representação de mulheres negras é quase inexistente. 

Jacyara alerta para o impacto simbólico dessa ausência. “Quando uma jovem negra (...) atravessa toda sua formação sem encontrar uma professora negra, a mensagem transmitida é silenciosa, mas poderosa: aquele lugar talvez não tenha sido pensado para ela”, reflete. Segundo a professora, o sindicato, portanto, assume o papel estratégico de defender ações afirmativas, acompanhar concursos e combater o racismo institucional que adoece e exclui.

Perseguição institucional
A luta antirracista tem gerado retaliações, especialmente contra docentes negras e negros em posições de liderança. Casos de perseguição política e processos administrativos infundados atingiram docentes como Ilzver Matos, impedido de tomar posse na Universidade Federal de Sergipe (UFS); Iguatemi Rangel, que sofreu mudanças casuísticas em editais na Ufes; além de Lorena Pinheiro, Dayse Moura e Leonardo Peixoto, entre outras e outros, como denuncia o artigo da revista Universidade e Sociedade.

O caso da própria Jacyara Paiva, que enfrentou uma tentativa de exoneração na Ufes após sua atuação na defesa de cotas, tornou-se símbolo de resistência. A mobilização “Jacy fica!” demonstrou a importância da resposta sindical. “O racismo institucional produz uma violência muito particular: ele tenta transformar quem denuncia um problema, em algoz, em culpado”, revela. 

Para a professora da Ufes, a resposta do sindicato deve ser sempre coletiva, pois "o racismo se alimenta do silêncio". Jacyara aponta a criação de protocolos específicos de enfrentamento ao racismo e a oferta de assistência jurídica especializada como avanços que o ANDES-SN tem buscado consolidar.

“Sou Docente Antirracista”
O combate ao racismo nos marcos do Sindicato Nacional foi reforçado também com a campanha permanente “Sou docente Antirracista”, lançada em julho de 2024. Para Jacyara, a campanha representa uma mudança de paradigma e afirma algo que o movimento negro diz há décadas: “combater o racismo não é responsabilidade exclusiva das pessoas negras.”

A professora lembra que esta campanha nasceu a partir da luta do Coletivo de Negras e Negros e se tornou um marco na construção de uma cultura sindical verdadeiramente antirracista. “Hoje, o ANDES-SN é referência nacional de sindicato que se abre a esta luta”, afirma

Jacyara destaca que a campanha marca uma mudança de postura ao convocar docentes brancos para a responsabilidade ética do combate ao racismo. Para Jacyara, quando um docente se reconhece antirracista, “passa a questionar currículos, práticas institucionais, presença negra nos espaços de poder, concursos, relações de trabalho e formas de produção do conhecimento”.

Os próximos 45 anos
Entre as lutas para o próximo período no ANDES-SN está a mobilização contra a Instrução Normativa (IN) que prevê o sorteio de vagas para cotas em concursos públicos, medida considerada um retrocesso pelo Sindicato Nacional. Jacyara reforça que o movimento docente deve seguir em luta para garantir condições de permanência e desenvolvimento para docentes e estudantes negras e negros. “Defender ações afirmativas, defender a luta antirracista é defender uma universidade verdadeiramente pública, democrática e socialmente referenciada”, aponta.

Ao olhar para o futuro, Jacyara lembra que o movimento negro no ANDES-SN reafirma que a luta também se faz pela memória, pela cultura e pela celebração da vida. Conforme a docente, os atos nos congressos, repletos de tambores, danças e poesias, são formas de levar para o sindicato tradições de resistência que humanizam a política.

“O Coletivo Quilombo segue sempre em construção, com a chegada de mais docentes negras e negros às universidades públicas, fruto das políticas afirmativas e da luta histórica do movimento negro, nosso quilombo também cresce e ele cresce dentro de uma perspectiva contra colonial de práxis sindical, isto é absurdamente revolucionário”, afirma.

Para as novas gerações de docentes negras e negros que ingressam na carreira, o recado de Jacyara Paiva é de acolhimento e firmeza. “Cada docente negra e cada docente negro que hoje ocupa uma sala de aula (...) carrega consigo a luta de muitas gerações que sonharam com esse momento”, lembra. 

Ela convoca todos e todas ao aquilombamento. “Não tentem lutar sozinhos, é preciso se organizar (...) O racismo tenta nos isolar porque sabe que a coletividade é a nossa maior força”, afirma.

A professora da Ufes ressalta que os próximos 45 anos do ANDES-SN dependerão da capacidade de compreender que democracia, universidade pública e justiça racial são projetos inseparáveis, que não competem um com o outro, que não dividem o sindicato, ao contrário, fortalece cada vez mais. 

“Quando uma pessoa negra ocupa um espaço e transforma esse espaço para que outras também possam chegar, ela não está apenas construindo uma carreira. Está ampliando os horizontes da democracia brasileira. “Aquilombar é o caminho, o amanhã será nossa insubmissão”, conclui.

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